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Mundial de Clubes: América do Sul x Europa e a supremacia europeia

Por Luiz Cláudio

Firmino marcou o gol que deu o título ao Liverpool no último Mundial, o sétimo seguido de um time europeu | Foto: Fifa/Getty Images

Quem hoje vê as disputas dos mundiais de clubes e a disparidade que há entre o futebol europeu e o sul-americano, não consegue imaginar que a disputa outrora já foi bastante acirrada. Em dado momento houve até hegemonia do futebol da América do Sul em relação ao europeu.


Criado no início da década de 60, o Mundial de Clubes já recebeu o nome de Copa Intercontinental e Copa Europeia/Sul-Americana. Inicialmente, o torneio era resumido em dois jogos. Um no continente europeu e outro na América do Sul. E era disputado entre o campeão europeu, hoje campeão da Liga dos Campeões da Europa, e o campeão da Taça Libertadores da América.


A última edição foi vencida pelo Liverpool (ING), que venceu o Flamengo na final. Embora Jürgen Klopp, técnico dos Reds, tenha afirmado que não conhecia muito do time brasileiro, é pouco provável que ele e sua comissão técnica não tenham estudado minuciosamente a equipe rubro-negra. O Rubro-Negro estudou muito o time adversário e foi para o jogo sabendo como os ingleses atuavam. Os campeonatos Brasileiro e Inglês têm exibição internacional. É difícil hoje não conhecer os rivais, principalmente quando eles atuam em ligas nacionais importantes.


Lá na década de 60 não era assim. Não havia transmissão das partidas de futebol. E um dos charmes da disputa do Mundial era exatamente esse. Ao disputar o torneio, a equipe ia enfrentar o desconhecido. Não havia um conhecimento detalhado do adversário. Foi neste contexto que o Real Madrid (ESP) venceu a primeira edição. O adversário da equipe espanhola foi o Peñarol (URU). Nas dez primeiras edições, a América do Sul venceu em seis ocasiões. O Santos foi o primeiro brasileiro campeão do mundo. E foi bi-campeão em 62 e em 63, numa época em que o Brasil dominava o futebol mundial, com a Seleção Brasileira vencendo em 62 a Copa do Mundo pela segunda vez consecutiva. A década de 60 foi pautada pelo equilíbrio. Cinco vitórias para cada continente.


Na década de 70, por problemas de calendário, duas edições não foram disputadas. A de 75 e a de 78. Nas outras oito edições, cinco vitórias sul-americanas e três europeias. Foi uma década em que o Brasil não venceu nenhum Mundial. O único brasileiro a disputar uma decisão foi o Cruzeiro, que perdeu em 76 para o Bayern de Munique (ALE), em pleno Mineirão, após um empate sem gols. Na Alemanha, o Bayern venceu por 2x0 no jogo de ida. No final da década de 70, cogitou-se a extinção do torneio, pois os clubes europeus não tinham tanto interesse na continuidade do certame. A chegada de um pesado patrocínio de uma montadora japonesa em 1980, aliada ao fato de a disputa ser feita em apenas um jogo, na capital japonesa, o que não afetaria tanto o calendário, fez com que os europeus desistissem da ideia de abandonar a competição. Entretanto, as equipes do velho continente, inicialmente, tratavam o Mundial como um amistoso de luxo.


A década de 80 marcou em seu início a maior supremacia sul-americana registrada até hoje. Foram sete conquistas consecutivas, que tiveram início na década de 70, em 1977, e só terminou em 1985, quando a Juventus (ITA) quebrou essa hegemonia. Foram seis vitórias das equipes da América do Sul e quatro de times europeus. O Brasil chegou duas vezes às decisões, vencendo em 81 com o Flamengo e em 83 com o Grêmio.

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A década de 90 foi a que o Brasil teve o melhor desempenho: em 11 ocasiões, o país chegou à final em sete. E conquistou o Mundial três vezes. Com o São Paulo, em 92 e 93, e com o Corinthians, em 2000. Em 95, 97, 98 e 99 perdeu com o Grêmio, Cruzeiro, Vasco e Palmeiras, respectivamente, para Ajax (HOL), Borussia Dortmund (ALE), Real Madrid (ESP) e Manchester United (ING). E também foi na década de 90, no ano 2000, que pela primeira vez o torneio foi disputado sob a chancela da FIFA. Foi oficialmente o primeiro Mundial de Clubes da FIFA e foi realizado sob o forte verão do Brasil. Inclusive, foi a única vez na história que a final de um Mundial foi disputada por duas equipes do mesmo país: Vasco e Corinthians decidiram no Maracanã, com a equipe paulista levando a melhor nos pênaltis, após o empate sem gols no tempo normal e na prorrogação. No final da década, foram seis vitórias de times europeus contra cinco de equipes da América do Sul. Foi a primeira década em que europeus levaram vantagem.


A primeira década do século XXI marcou de forma definitiva o domínio europeu sobre as equipes sul-americanas. Foram sete conquistas europeias contra três vitórias da América do Sul. O Brasil foi campeão com o São Paulo em 2005, na primeira edição de um Mundial com o formato atual, onde todos os campeões continentais, além do campeão nacional do país sede ganharam o direito de participar. Em 2006, o Internacional foi campeão ao bater o poderoso Barcelona (ESP) na final. A síntese que endossa o fato de os times sul-americanos terem perdido prestígio nesta competição foi quando, em 2010, o Internacional não conseguiu chegar sequer à final. Na semifinal, o time de Porto Alegre perdeu para o modesto Mazembe (COG), na semifinal. Foi a primeira vez em que um time da América do Sul não disputou a final.


Na década atual, o massacre é ainda maior. Das nove edições disputadas até aqui, apenas o Corinthians em 2012 conseguiu vencer para os sul-americanos. Foram oito vitórias europeias. O Flamengo, na última edição, foi o que mais ofereceu resistência ao campeão nas edições em que os europeus venceram. A América do Sul ficou fora da final em três ocasiões, e o Brasil foi à final quatro vezes, vencendo com o Corinthians em 2012 e perdendo com o Santos, o Grêmio e o Flamengo, em 2011, 2017 e 2019, respectivamente, para Barcelona (ESP), Real Madrid (ESP) e Liverpool (ING). A vitória dos Reds fez com que a Europa chegasse a sua maior sequência invicta, com sete conquistas consecutivas, igualando a maior marca sul-americana. E essa marca tende a aumentar.

A que se deve tal supremacia?

De forma bem direta, diria que fatores econômicos estão no cerne do abismo que hoje separam os clubes europeus das equipes da América do Sul. A diferença financeira sempre existiu, mas agora está mais acentuada. Não há como competir em matéria de cifras. Atrelados a isso, vem a mudança de postura das equipes da Europa com relação à importância do certame, a estrutura cada vez melhor e o fato de os europeus terem a seu dispor, por causa do poderio financeiro, os melhores jogadores. As principais equipes da Europa possuem verdadeiras seleções, enquanto os nossos bravos times lutam para se manter. Enfrentam uma guerra chamada Libertadores da América, e fazem um esforço sobrenatural para chegar ao Mundial e tentar domar equipes europeias muito mais preparadas física, tática e tecnicamente falando. A mudança de formato de disputa do torneio intercontinental, como pretende implementar a FIFA, há de acentuar ainda mais essa diferença, já que mais equipes europeias vão participar. Hoje é um parto bater um europeu, imagine superar três ou quatro...


O fator Flamengo


O Flamengo, enquanto pôde, foi o time da América que mais endureceu um jogo de final contra um europeu nos últimos anos. Enfrentou uma equipe afinada em todos os setores. Que tem vários jogadores na seleção dos melhores do mundo. Que tem também uma das melhores zagas, com três jogadores na seleção mundial, incluindo o goleiro da Seleção Brasileira: Alisson. E ainda assim, o Rubro-Negro conseguiu em vários momentos equilibrar o jogo. Jogar de igual para igual. Terá condições a equipe carioca de repetir o extraordinário 2019? A conferir.


Numa análise bem fria, apenas e tão somente o Flamengo não é suficiente para enfrentar o poderio europeu. Seria necessário que houvesse mais times qualificados na América do Sul. O Fla vai enfrentar novamente uma renhida Taça Libertadores da América e, num acidente eu diria, pode não conseguir repetir 2019. Vale lembrar que, mesmo com extrema superioridade, o clube da Gávea só conseguiu vencer o River Plate nos acréscimos da decisão, e os dois gols da virada vieram nos minutos finais. Por um triz o Flamengo não perde a final da Libertadores.


Jogando uma Libertadores mais forte, contra equipes mais qualificadas, a equipe campeã poderá chegar ao Mundial com melhores condições de disputa. Não teria tanto impacto na diferença técnica que separa os dois continentes. Uma coisa é o time sair campeão da Liga dos Campeões da Europa, onde enfrenta as equipes mais qualificadas do mundo, para disputar o Mundial de Clubes. E outra completamente diferente é o time sair campeão da Taça Libertadores da América. Distância extrema.

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