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Maracanã: 70 anos do templo sagrado das grandes emoções

Este é um artigo opinativo. O texto abaixo é de total responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, a opinião da Alternativa Esportes Web Rádio.


Por Luiz Cláudio

Janeiro de 2000: o Maracanã no primeiro Mundial de Clubes da FIFA - o tradicional estádio ainda tinha geral | Foto: Getty Images

O bom e velho estádio Mário Filho, ou simplesmente Maracanã, chega aos 70 anos. Nasceu com a alcunha de “O Maior do Mundo”. Afinal, foi construído com capacidade para receber até 200 mil pessoas. O maior templo do futebol mundial, são tantas histórias. O estádio foi testemunha de acontecimentos notáveis. Chorou com a derrota da Seleção Brasileira na Copa de 1950, para o Uruguai, por 2x1, de virada. Um desastre. Recebeu o maior público presente da história do futebol mundial. A final da Copa de 1950 teve a assistência de nada menos que 199.854 espectadores. O maior público pagante da história do jogo também foi no Maracanã. Em 1969, em jogo válido pelas eliminatórias da Copa do México, Brasil e Paraguai jogaram para 183.341 pagantes. Vitória do Brasil por 1x0, gol de Pelé. O recorde de maior público entre clubes também é dele. Em 1963, o Fla-Flu de dezembro recebeu 194.603 torcedores. O jogo terminou 0x0.


Dá pra imaginar onde foi registrado o maior público da história do vôlei mundial? Em julho de 1983, o Brasil enfrentou a União Soviética, no Maraca. Vitória do Brasil, liderado por Bernard, com o seu famoso saque “Jornada nas Estrelas”, por 3 sets a 1. Naquela noite de 26 de julho, 95.887 pessoas foram ao estádio, mesmo debaixo de muita chuva. O estádio também recebeu figuras ilustres como o Papa João Paulo II, em julho de 1980. No mesmo ano, só que em janeiro, o imortal Frank Sinatra cantou para 175 mil pessoas no estádio. Para o lendário atacante uruguaio Ghiggia, autor do gol que deu o título da Copa de 50 para a Celeste, na vitória contra o Brasil: "Somente três pessoas silenciaram o Maracanã: o Papa, Frank Sinatra e eu.”


Vou contar de forma resumida um pouco da minha relação com o Maior do Mundo. Relação essa que dura 35 anos, a metade da vida do gigante. São sete jogos que mais me marcaram e quatro casos muito curiosos que presenciei. Quando menino, cheguei a anotar os 100 primeiros jogos que assisti no Maracanã, mas, infelizmente, perdi as anotações e a conta de quantos jogos acompanhei. Vamos começar pelo início, obviamente.

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- Ele é muito lindo!


Tinha 12 anos quando fui pela primeira vez ao Maracanã. Quando soube que ia, fiquei em êxtase. Um sonho. Era um domingo de tarde ensolarada, naquele 13 de outubro de 1985. Botafogo e America se enfrentaram em jogo válido pelo segundo turno do Campeonato Estadual, a Taça Rio. Acostumado a ver os jogos em casa numa TV em preto e branco, fiquei fascinado com o contraste produzido pelo verde do gramado e o vermelho vivo da camisa do Rubro. Por longos dias fechava os olhos e aquela imagem estava lá, guardada na memória. Como era lindo o Maracanã. Quando cheguei ao estádio, o Glorioso vencia por 1x0, mas, com gols do ídolo Luizinho e do ponta esquerda Canhotinho, o America virou e venceu por 2x1. Voltei à casa feliz, com um dia que levou dias para terminar.


- O Flamengo vai ser campeão!

21 de junho de 1989. Final do Campeonato Estadual. Botafogo x Flamengo. Havia 21 anos que o Glorioso não conquistava o Carioca. Longo Jejum. O Rubro-Negro, por sua vez, vinha de dois vice-campeonatos para o Vasco, e não queria deixar escapar a chance de ser campeão pela terceira vez consecutiva. Mas quem ia imaginar que um time que tinha entre os 11 nomes como os do goleiro Zé Carlos, Jorginho, Aldair, Leonardo, Zico, Bebeto, Zinho e outros pudesse perder o campeonato? Nem eu. É bem verdade que o clube da Gávea não tinha como ser campeão naquela noite. Tinha que pelo menos empatar para forçar o terceiro jogo no domingo. Para encurtar a história, o Bota venceu por 1x0, gol do Maurício, e aos 40 minutos do segundo tempo, lá estava eu, atônito, trêmulo, incrédulo com o que via. A torcida do Alvinegro estava em êxtase. Acho que também fiquei extasiado. Depois de 21 anos, diante dos meus olhos, o Botafogo era campeão carioca invicto.


- Menos de um mês depois, haja coração!


16 de julho de 1989. Final da Copa América. Brasil x Uruguai. A nossa Seleção amargava um jejum de 40 anos sem conquistar o torneio sul-americano. Fui ao jogo na expectativa de ver o Brasil campeão pela primeira vez. Já tinha assistido, na antevéspera, uma vitória contundente do time comandado por Sebastião Lazaroni por 3x0 sobre o Paraguai, no mesmo Maracanã. E o Romário não me decepcionou. Em jogo truncado e amarrado, foi dele o gol do título, escorando de cabeça um cruzamento perfeito do lateral-direito Mazinho, no início da etapa final. Em minha memória, até hoje, está a imagem do Romário correndo para comemorar seu gol na direção em que eu estava, nas antigas cadeiras azuis, atrás do gol. 1x0 para o Brasil, que 40 anos depois, era campeão da Copa América.

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- Rio na frente...


Nunca a rivalidade entre Rio e São Paulo foi tão acirrada e equilibrada como na década de 90. Para se ter uma ideia, naquela década, apenas o Grêmio, em 1996, foi campeão brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo. Domingo, 21 de dezembro de 1997, Vasco e Palmeiras foram a campo para definir de qual seria a hegemonia no futebol brasileiro. Até ali, cada estado havia conquistado o Brasileirão em nove ocasiões. Antes da partida, através de um telão, foi possível ver a Seleção Brasileira conquistar a Copa das Confederações, ao bater a Austrália, na Arábia Saudita, por 6x0. Três gols de Romário e três de Ronaldo. Foram os únicos gols daquela tarde. Depois de um 0x0, o Vasco sagrou-se tri campeão brasileiro, pois jogava pelo empate. O título coroou uma temporada fantástica do atacante Edmundo, que fez incríveis 29 gols em 28 jogos. Apesar do 0x0, foi um grande jogo. Ao final da partida, no antigo placar eletrônico do estádio, estavam os seguintes dizeres: “RJ 10x9 SP”.


- Que dificuldade!


Cheguei a São Januário às 5 horas da manhã. Uma interminável fila para comprar ingressos para a final do 1º Mundial de Clubes da FIFA. Foram os ingressos mais difíceis que já consegui comprar. Teve confusão. Cavalaria da PM sobre os torcedores. Gás de pimenta. O caos. Sete horas depois, consegui deixar a bilheteria do estádio em posse dos ingressos. 14 de janeiro de 2000. Vasco e Corinthians decidiram o Mundial. Na preliminar, deu pra ver o estrelado Real Madrid (ESP) de Casillas, Roberto Carlos, Fernando Hierro, Sávio, Raúl, Eto’o, Anelka e tantos outros, enfrentar o Necaxa (MEX). Na final, depois de um 0x0 no tempo normal e na prorrogação, o Timão levou a melhor ao vencer nos pênaltis, após o Edmundo, principal ídolo do Cruzmaltino, desperdiçar a sua cobrança. Corinthians 4x3 Vasco. O Gigante da Colina, dos atacantes Romário e Edmundo, via o clube paulista, de Marcelinho Carioca, que também desperdiçara a cobrança dele, sagrar-se campeão do Mundial de Clubes.


- Petkovic canonizado


27 de maio de 2001. Estava exatamente atrás do gol defendido pelo goleiro do Flamengo, Júlio César, e portanto, vi de frente a magistral cobrança de falta do gringo. O goleiro Hélton, do Vasco, estava de frente para a minha posição. Eram decorridos 43 minutos do segundo tempo quando saiu o mágico gol. O Cruzmaltino tinha um time superior, e como fizera melhor campanha, jogava a final com a vantagem, que foi ampliada após vencer o primeiro jogo. O Rubro-Negro tinha a obrigação de vencer por dois gols de diferença. Para complicar ainda mais o jogo para o Fla, no final do primeiro tempo, quando a equipe vencia por 1x0, com gol de Edilson, Juninho Paulista igualou o placar para o Gigante da Colina. Agora o clube da Gávea tinha apenas um tempo para fazer dois gols. Se não... No segundo tempo, logo no início, novamente Edilson colocou o Flamengo à frente. No minuto 43, o que vi? Tive a impressão que a bola sairia. Ela, ao aproximar-se do gol, descreveu uma improvável curva e morreu no ângulo do Helton. Era o gol do tricampeonato. Flamengo 3x1. Petkovic, a partir dali, estava imortalizado na galeria dos grandes heróis rubro-negros.

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- Copa do Mundo. Adeus, Espanha!


Desde criança sonhava em ver um jogo de Copa do Mundo. E esse sonho foi duplamente realizado em 2014. Vi dois jogos do Chile. No Mineirão, a Seleção Brasileira eliminou os chilenos nos pênaltis. Mas antes, precisamente no dia 18 de junho de 2014, o Chile proporcionou a primeira grande surpresa da Copa. Era o meu primeiro jogo de Copa do Mundo, e no Maracanã. A Espanha era a atual campeã mundial. Como havia perdido de forma vexatória para a Holanda na rodada inaugural, os espanhóis precisavam vencer de qualquer maneira para continuar na Copa. Com gols de Vargas e Aránguiz, os sul-americanos venceram por 2x0 e mandaram os europeus mais cedo para casa.


- Se eu contar, você não acredita: disputa de pênaltis


O futebol brasileiro contém pérolas inimagináveis. Em 1988, na disputa da Copa União, houve uma mudança no regulamento significativa. A partir desta competição, o vencedor de um jogo passaria a ganhar três pontos. Se houvesse empate, a disputa iria para os pênaltis. O vencedor nos pênaltis ganharia dois pontos e o perdedor um. Na primeira rodada da competição, Botafogo e Fluminense empataram em 1x1. As equipes decidiram não ir para as penalidades, pois julgaram que o regulamento não estava claro. Só que, no dia 5 de outubro de 1988, um mês após a partida, as equipes voltaram a campo para definir o vencedor nas penalidades. Lá estava eu para testemunhar o dia em que o Maracanã abriu somente para uma disputa de pênaltis. O fato foi tão inusitado que a vitória do Flu por 5x4 ficou em segundo plano.


- Nunca saia antes


O último jogo do Brasil em solo tupiniquim antes da Copa da Itália, em 90, foi contra a extinta Alemanha Oriental, no Maracanã, no dia 13 de maio de 1990. A Seleção Brasileira vencia com certa facilidade. O placar marcava 3x1. O final da partida se aproximava, e então decidi que era hora de ir embora. Ao atravessar a entrada em frente à estátua do Bellini, ouvi um murmurinho. Soube ali que a Alemanha diminuíra: 3x2. Mas, decidido, optei por não retornar. Segui caminho de casa. Chegando próximo ao Colégio Militar, outro gol. Inacreditável. Os alemães empataram o jogo. Daquele momento em diante, nunca mais saí do estádio antes de o árbitro determinar o término da partida. Muita coisa pode acontecer. Por isso, aconselho: nunca saia antes. Final de jogo, 3x3.

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- Que azar!


Grave bem esta data: 09/09/90. Muitos nove, não? Mas, também, igualmente muitos zero. Neste dia, 9 de setembro de 1990, fui ao Maracanã feliz da vida. Pela primeira vez, veria o America jogar um amistoso internacional. O adversário era a seleção da Arábia Saudita. Os árabes tinham disputado recentemente a Copa do Mundo da Itália. No Rubro, havia uma grande expectativa pelo confronto. Esse jogo fazia parte de um programa duplo, a clássica rodada dupla, muito comum nas décadas de 80 e 90. No chamado jogo de fundo teria Fluminense x Vasco, válido pelo Campeonato Brasileiro. No jogo preliminar, America 0x0 Arábia Saudita. No jogo de fundo, Fluminense 0x0 Vasco. Que azar! Ir ao Maracanã e ao final de 180 minutos não ver nenhum gol. Inédito. Os atacantes não fizeram jus aos tantos nove presentes na data.


- Se pudesse voltar no tempo...


Em 1993, o Botafogo acabara de perder o seu mecenas: Emil Pinheiro rumou para o America levando parte do forte elenco. O clube precisou começar do zero. Com uma equipe modesta e de forma surpreendente, o Alvinegro chegou a uma final internacional. Ia decidir com o Peñarol (URU) a Copa CONMEBOL. Seria muito bom para o clube se ele conquistasse um título importante, depois das perdas em seu elenco. Precisava presenciar esse momento. E o jogo com os uruguaios foi de muita emoção. Depois de um empate em 2x2, as equipes foram para os pênaltis. Brilhou a estrela do goleiro Willian Bacana, e o Glorioso saiu vencedor: 3x1. Botafogo campeão da CONMEBOL. Fui a esse jogo e fiquei no setor das cadeiras especiais. Acomodado em meu assento, ainda antes de o jogo começar, dei uma panorâmica pelo setor. Dois lances de cadeiras acima do meu estava junto, trocando ideias, um trio fantástico. A Enciclopédia Nilton Santos, o Mestre Didi e o Velho Lobo Zagallo. Até hoje não me perdoo por não ter pedido um autógrafo.


O Maracanã é o estádio mais especial do Mundo. Parabéns, Gigante!

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