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Jogos pagos pela internet e falta de acordo com emissoras escancara a elitização do futebol nacional

Por Luca Garcia


Com 2,1 milhões de visualizações simultâneas no YouTube, a transmissão de Flamengo 2x0 Boavista se tornou a maior live esportiva da história da plataforma | Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

O ano conturbado do futebol carioca ganhou mais um capítulo: a Rede Globo rescindiu o contrato de transmissões do Campeonato Carioca, isso porque a emissora se viu desrespeitada pelo Flamengo e, ainda, se entende defendida pela constituição em tal atitude. Por outro lado, a diretoria rubro-negra colocou em prática a Medida Provisória 984/2020, que foi editada pela Presidência da República, permitindo os direitos de imagem referentes às transmissões aos clubes mandantes.


Assim, a FlaTV se tornou o streaming oficial das partidas do clube com a maior torcida do Brasil. Mas essas ações tomadas pelos dirigentes foram pensadas para beneficiar todos os flamenguistas?


A inovação fora da realidade


Há quem diga que romper relações com as emissoras, e monopolizar as partidas por seus próprios streamings, são atitudes inovadoras para se estabelecer um padrão hegemônico e europeu ao futebol brasileiro. No entanto, essas pessoas se esquecem da real situação aqui passada: vivemos no sétimo país mais desigual do mundo.


Dessa forma, os 40 milhões de torcedores do Flamengo correspondem a 20% de todos os brasileiros. Entretanto, dentro dessa amostragem, dez pontos percentuais são relativos a pobres, negros e indígenas, justamente os grupos mais prejudicados pela desigualdade.


Assim, centralizar todos os direitos de imagens na internet exclui a possibilidade de visualizações de boa parte da torcida, que sequer tem acesso a redes de wi-fi com qualidade. Além disso, a alienação causada por esse fenômeno social é tão grande, que muitos torcedores não recebem a informação completa de como assistir as partidas.


Transmissão de Flamengo 2x0 Volta Redonda, neste domingo, no MyCujoo teve problemas técnicos e partida acabou sendo exibida com imagens na FlaTV | Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

Nesse sentido, a mais recente atitude da diretoria rubro-negra evidenciou a elitização do futebol no Brasil. Após anunciar a transmissão da semifinal da Taça Rio, neste domingo (5), entre Flamengo x Volta Redonda, pela plataforma MyCujoo, o clube decidiu cobrar R$ 10 reais para não-sócios assistirem ao jogo. Logo, enquanto o presidente Rodolfo Landim disse, em entrevista à Fox Sports, que “é R$ 10 para um lar, mais de uma pessoa pode ver”, torcedores picharam os muros da Gávea com “fora Landim ganancioso, o Flamengo é do povo!”.


O revoltante cenário “normal”


Os dirigentes veem esse valor como algo simbólico para manter a receita. Porém, o cenário real das torcidas, e especificamente a do Flamengo, contradiz esses argumentos. É o caso do morador do Morro do Turano, Guilherme dos Santos, flamenguista de 19 anos, que trouxe o ponto de vista dele sobre a situação e citou um exemplo pessoal.


- Muita gente tem a coragem de dizer que os R$ 10 são simbólicos, mas isso não é verdade. Eu, por exemplo, não vou conseguir assistir a esse jogo de hoje. Muita gente não tem acesso a internet, a esse valor, ou a cartões de crédito. Eu tenho um irmão mais novo que é fanático, e falar para ele que não vamos conseguir ver o jogo porque vai ser pago, me deixa muito triste. A cada tempo que passa, o Flamengo se afasta mais do seu povo - contou o torcedor.


Assim, a diferença de pensamento entre a torcida e as diretorias que representam seus times se mostra mais uma vez na fala de Landim, quando ele disse que “é mais barato que ver um jogo no estádio. É bem acessível”. No entanto, essas falas recém-divulgadas, escancaram como esse processo de elitizar a torcida já é algo recorrente, tanto no Rio de Janeiro quanto no Brasil. Dessa forma, o problema é que a acessibilidade na qual o presidente rubro-negro se refere não é compatível com a precificação absurda nos jogos do time. É o que relata Guilherme.


Gabigol exibe cartaz em comemoração | Foto: André Durão

- Paguei 30 reais no jogo do Carioca entre Flamengo x Cabofriense. Só fui em um jogo de Libertadores na minha vida, já que os ingressos são quase R$ 70. Quanto mais tempo passa, menos eu e meu irmão frequentamos o Maracanã. O ingresso não é barato, não tem um ingresso pensado para o povo. Não adianta nada ganhar os jogos e postar ‘festa na favela’ se continuar desse jeito - disse o jovem de 19 anos.


Para a maior parcela da torcida, que não é afiliada aos planos de sócios-torcedor, a precificação média do setor norte, o mais barato, em jogos do Flamengo, é de R$ 40. Um valor muito elevado para o clube que nomeia seus adeptos como "nação", ou seja, aborda as mais diversas classes sociais.


Contudo, mesmo o Flamengo tendo liberado o sinal da transmissão contra o Volta Redonda gratuitamente, a elitização do esporte mais popular do mundo continua presente no futebol brasileiro. Enquanto o atual elenco do campeão da Libertadores estiver em alta, o Maracanã vai continuar se lotando e batendo recordes anuais. Porém, inovações que não são inerentes à nossa realidade, precificações elevadas de ingressos e rompimento com as emissoras, deixam cada vez mais em evidência a tentativa de monopolizar o futebol.


Dessa forma, a frase “gradativamente os clubes estão fazendo o processo de se afastar de nós”, enunciada por Guilherme, se exemplifica nos tempos contemporâneos do futebol carioca e brasileiro.

© 2018 Alternativa Esportes. Orgulhosamente criado com Bruno Pinheiro. 

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