• Alternativa Esportes

Flamengo: as duas faces de uma moeda

Por José Roberto Julianelli


Tragédia completou um ano no último dia 08/02 (Arte: Site Extra)

Vou separar o Flamengo em duas partes nessa história triste que aconteceu há um ano, e que resultou na morte de dez adolescentes num alojamento no centro de treinamento do clube.

O primeiro Flamengo a que vou me referir é aquele time que entra em campo semanalmente, recheado de astros consagrados, com salários astronômicos, e passes avaliados em milhões de euros. Este Flamengo é o que enche de orgulho os mais de 40 milhões de torcedores espalhados pelo Brasil e o mundo, que se alegram a cada vitória, que choram e sofrem com as derrotas, mas não deixam de amar e torcer pelo clube do coração. Esse é o Mengão da Nação, o Mais Querido do Brasil, o clube dos ricos e dos pobres, das comunidades e dos condomínios de luxo, que construiu uma extraordinária história de lutas e conquistas memoráveis, e nos dias de hoje é considerado o melhor time do Brasil, com o elenco mais valorizado em todo continente Sul-Americano.


Mas há o outro Flamengo sobre o qual eu convido o leitor a refletir comigo: é o outro lado da moeda. É o Flamengo que está oculto, são os bastidores de uma história terrível que se arrasta por longos e intermináveis 365 dias, sem ter uma solução que seja razoável e que acabe com esse constrangimento a que os torcedores, diariamente, são submetidos. O auge foi visto no último Fla x Flu, quando parte da torcida do Tricolor, aos gritos de “time assassino” trouxe à tona, mais uma vez, a necessidade de uma solução rápida para este caso. É evidente que o clamor de alguns torcedores está longe de ser uma causa abraçada por eles, mas foi uma oportunidade, oferecida pelo próprio Flamengo, para ter sua ferida exposta e deixar que ela fosse atacada, pisoteada, fazendo doer ainda mais no sentimento do torcedor e também dos jogadores em campo, que em suma, não são os responsáveis pela tragédia que aconteceu.


A diretoria se limita a dizer que alguns acordos já foram feitos, parece-me com quatro famílias e meia (um casal é separado, e uma das partes já teria aceitado a proposta do clube), mas ainda faltam as outras famílias, que até agora não se acertaram com o clube. Diante dessa questão, uma pergunta é recorrente: quanto vale uma vida? Qual é o valor a ser pago, de modo que a dor seja aplacada, e essas famílias voltem a viver normalmente? Quanto vale a vida da sua mãe, você que está lendo esse artigo? Do seu pai? De um filho seu, caso tenha filhos? Qual vida vale mais, a de um adolescente de 15 anos, ou a de um idoso de 80? Um milhão de reais? Dez? Um bilhão? Tem preço que pague? Eu tenho a opinião de que é impossível definir um valor para um bem que não pode ser valorado, por inúmeras razões.


Eu não tenho dúvidas de que o Flamengo cometeu um crime de responsabilidade nesse episódio. Não houve evidentemente intenção de matar aqueles meninos, não foi premeditado e ninguém foi lá e colocou fogo no alojamento. A responsabilidade nesse caso pode estar numa falta de manutenção do local, que poderia evitar o acidente, talvez colocar os meninos em um lugar mais digno, seguro e confortável, como todos merecem, enfim, podemos listar diversos procedimentos que poderiam ter sido adotados para que hoje, um ano depois, não tivéssemos que lembrar e lamentar o terrível acidente.


O que me intriga e revolta ao mesmo tempo nessa história é falta de transparência da diretoria do Flamengo diante dessa questão, o que dá margem a diversas elucubrações ou especulações em torno da real situação. A diretoria tem o dever e a obrigação de vir a público esclarecer os fatos e mostrar com clareza e transparência tudo o que está sendo tratado, com cada família, demonstrando o que já está sendo feito e o que ainda está sendo tratado. Dizer claramente o porquê dos outros acordos ainda não terem sido acertados, o que ou quem está dificultando, e qual e a perspectiva para se chegar à solução final. Repito, isso é uma obrigação da diretoria do clube, ser transparente num caso de tamanha gravidade.


A ausência dessas informações expõe desnecessariamente a instituição Flamengo, que de uma forma vergonhosa, está sendo apresentada como um clube criminoso e insensível, que não se preocupa com as famílias enlutadas, dando munição à mídia oportunista para fazer o sensacionalismo que vende jornais e dá audiência aos programas de televisão.


Para ser grande, não basta a um clube ter poder econômico, boa estrutura e conquistar títulos, além de uma grande e apaixonada torcida, porque hoje o Flamengo tem isso tudo. Entretanto, com essa atitude no caso dos Meninos do Ninho, o clube está se apequenando, mostrando, ainda que não seja essa a realidade, uma imagem suja, mesquinha e insensível. Pode não ser nada disso, mas é o que se vê diante de um comportamento equivocado de uma diretoria que não vem a público esclarecer o que de fato ocorre nos bastidores dessa negociação. Enquanto isso, a morte dos meninos será uma ferida aberta, que não vai cicatrizar tão cedo, e continuará trazendo dor não somente aos familiares, mas também aos torcedores, que a despeito das conquistas em campo, não são coniventes e clamam para que a justiça se faça de uma vez por todas.


O Flamengo é muito grande para deixar que sua imagem fique marcada por esse triste episódio em sua história, o qual precisa urgentemente ter um ponto final. Que a justiça seja feita, é o que todos desejamos!

29 visualizações

© 2018 Alternativa Esportes. Orgulhosamente criado com Bruno Pinheiro. 

  • Facebook - Alternativa Esportes
  • Instagram - Alternativa Esportes
  • Twitter - Alternativa Esportes
  • Youtube - Alternativa Esportes
  • Facebook - Alternativa Esportes
  • Instagram - Alternativa Esportes
  • Twitter - Alternativa Esportes
  • Youtube - Alternativa Esportes