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50 anos do Tri #1 - memórias de uma Copa do Mundo inesquecível: o período pré-Mundial

Atualizado: Jun 19

Este é um artigo opinativo. O texto abaixo é de total responsabilidade do autor, não refletindo, necessariamente, a opinião da Alternativa Esportes Web Rádio.


Por José Roberto Julianelli


Vamos contar a história da conquista do tricampeonato mundial da Seleção Brasileira, em 1970, no México, em quatro episódios. Num primeiro momento, falaremos do período que antecedeu a Copa de 70, abordando um pouco as eliminatórias e o período imediatamente posterior à classificação; numa segunda etapa vamos falar da estreia da nossa Seleção na fase de grupos; em seguida, contaremos um pouco do que aconteceu nas quartas de final e na semifinal, com dois jogos contra seleções sul-americanas, deixando para a quarta e última etapa a apresentação do jogo final contra a Itália. Vamos viajar no tempo, ao lado da Seleção que marcou uma geração e fez história no futebol mundial. Espero que gostem!

O Rei do Futebol anotou o único gol daquela partida | Foto: Reprodução/Twitter/CBF Futebol

O período Pré-Copa do Mundo


A história da conquista do tricampeonato brasileiro vai ser contada a partir do dia 31 de agosto de 1969, quando a Seleção Canarinho, comandada pelo jornalista João Saldanha, venceu o Paraguai, seu último adversário das eliminatórias, no Maracanã. Diante de um público pagante de 183.341 torcedores, embora as estimativas da época indiquem que naquele dia mais de 200 mil pessoas estiveram no estádio para acompanhar a partida, as “Feras do Saldanha” como era chamada a nossa Seleção, entraram em campo como favoritos. Essa condição se devia à campanha avassaladora, pois até ali eram dez pontos ganhos em cinco jogos, com cinco vitórias (na época, uma vitória contava apenas dois pontos para o time vencedor), 22 gols a favor e apenas dois contra, com goleadas desmoralizantes sobre a Colômbia e Venezuela, que juntamente com o Paraguai, completavam a chave do Brasil.


Apesar da superioridade técnica em campo e das inúmeras chances perdidas, o resultado foi apertado naquele domingo. O magro placar de 1x0, com gol de Pelé aos 23 minutos do 2º tempo, deixou a torcida um pouco frustrada porque todos esperavam mais uma goleada, porém não menos entusiasmada pela confirmação da vaga. O Brasil vinha de um fracasso em 1966, na Copa da Inglaterra, depois de ser bicampeão em 1958 e 1962, e os torcedores esperavam uma reabilitação com a conquista da Copa do México.

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Missão cumprida, agora era aguardar o mês de junho de 1970 para a grande conquista do tri. Naquele jogo, o time contou com sua força máxima, formado num esquema 4-2-4 por: Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo; Piazza e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. A base era o time do Santos, com seis jogadores (a defesa toda, e mais Pelé e Edu na frente) e contava ainda com Felix (Fluminense) no gol, Piazza e Tostão (Cruzeiro), Gerson (que tinha se transferido do Botafogo para o São Paulo em julho de 69) e Jairzinho (Botafogo). A euforia, contudo, começou a diminuir pouco tempo depois da conquista da vaga, e a situação piorou no início do ano seguinte.


O contexto político da época era o pior possível. O Brasil vivia o período dos governos dos generais, instalado com o golpe militar ou a revolução de 1964, e as liberdades individuais eram muito controladas. O presidente general Emílio Médici havia assumido em 30 de outubro de 1969, e iria inaugurar o período mais duro da ditadura no Brasil, conhecido como os “Anos de Chumbo”. Era um governo que usava como slogan “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, demonstrando claramente que aqueles que se opunham ao regime não eram bem vistos por aqui. Este período difícil para o povo brasileiro é mostrado no filme “Prá Frente Brasil”, de 1982, dirigido por Roberto Farias e que tinha no elenco nomes de destaque da dramaturgia brasileira como Reginaldo Faria, Natália do Vale, Cláudio Marzo, Antônio Fagundes, Neuza Amaral, Carlos Zara, Elizabeth Savalla, entre outros. Aliás, o nome do filme é uma alusão à marchinha que foi composta para embalar o povo durante a Copa do Mundo, e que ficou marcada como símbolo daquela conquista.

Tostão teve grave lesão no período pré-Copa de 70 | Foto: Arquivo

O presidente Médici, para se mostrar popular, afirmava gostar de futebol, porém seu interesse pelo esporte acabou trazendo problemas para a nossa Seleção, como será visto adiante. Como dissemos anteriormente, a euforia com a Seleção tinha começado a cair, primeiro devido a uma contusão sofrida pelo nosso principal jogador à época, o jovem Tostão, de apenas 22 anos. Em 24 de setembro de 69, quase um mês depois da classificação, num jogo contra o Corinthians, em uma disputa com o zagueiro Ditão, a bola foi chutada com muita violência, atingindo o olho esquerdo do atacante do Cruzeiro que sofreu um descolamento da retina. Houve uma comoção nacional e muitos queriam acompanhar as notícias do nosso jogador, que teve que ser operado em Houston, Texas, nos Estados Unidos. Tostão teria que ficar afastado por muito tempo e seu aproveitamento na Seleção passou a ser uma incógnita. O ano de 1969 acabou assim: uma forte ditadura no campo da política e uma grande apreensão no futebol.

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O início de 1970 não foi muito promissor: o técnico João Saldanha se apresentava bastante irritado, e a Seleção não vinha jogando bem nos amistosos preparatórios para a Copa. Juntando-se a isso, o presidente Médici havia manifestado seu desejo de ver o jogador Dario, do Atlético-MG, o Dadá Maravilha, convocado para a Seleção. Ao ser perguntado sobre esse tema, João Saldanha teria respondido que o presidente escalava os seus ministros e que ele escalava o time, acrescentando que não convocaria Dario porque já tinha os próprios jogadores definidos. Essa declaração obviamente não foi bem recebida pelo governo e também por alguns diretores da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antes de se tornar CBF).

João Saldanha foi demitido antes do início da Copa de 70 | Foto: Ag. Estado

O técnico da Seleção começou a ser muito contestado, e a irritação dele acabou criando problemas com a própria imprensa, além das críticas ao trabalho dele, que aumentavam cada vez mais. Porém, um episódio foi determinante para a decisão do Presidente da CBD, João Havelange, de demiti-lo do cargo. Em 12 de março, Saldanha invadiu a concentração do Flamengo, armado, e disseram à época, alcoolizado, querendo encontrar o treinador do Rubro-Negro, chamado Yustrich, pois não gostara de alguns comentários feitos acerca do seu trabalho na Seleção. Além disso, num jogo preparatório, o Brasil não conseguiu vencer o modesto time do Bangu, aqui no Rio de Janeiro, o que foi considerado mais um péssimo resultado às vésperas da Copa do Mundo. No dia 17 de março, Havelange então comunica que ele não será mais o técnico da Seleção Brasileira na Copa do México.


Após essa confusão, a comissão técnica foi recomposta, agora contando com alguns militares: o supervisor era o capitão Cláudio Coutinho, e o preparador físico, Carlos Alberto Parreira, que mais tarde seriam treinadores do Brasil. Para treinador, o escolhido foi o jovem Zagallo, bicampeão como jogador pela nossa Seleção em 58 e 62, que vinha fazendo bons trabalhos e inclusive conquistara com o Botafogo o bicampeonato Carioca e a Taça Guanabara, em 67 e 68. Estávamos há pouco menos de três meses do início da Copa, e Zagallo, felizmente, não inventou muito. Aproveitou a base do time formado por João Saldanha, mas fez alterações táticas, incluindo alguns novos jogadores no time. Coincidentemente ou não, Dadá Maravilha foi convocado e participou, mesmo sem jogar, da conquista do título. Por orientação da Comissão Técnica, a Seleção Brasileira viajou com bastante antecedência para se adaptar a altitude da sede do grupo, que seria Guadalajara, que fica a 1566 metros do nível do mar.

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